21.10.08

As coisas que só acontecem comigo: mendigaria

O meu trânsito astrológico não está colaborando este ano: é o retorno de saturno, é plutão, que nem planeta é mais e que se encontra em sagitário até novembro (desde de 1995, li em algum lugar. já vai tarde, enfim!) pra continuar bagunçando o coreto. E o que isso quer dizer? O que macunaíma dizia: que urubu quando está cagado, o de baixo consegue cagar no de cima.

Darei carga dramática à cena.

Estava eu, feliz e faceira, ouvindo música e pensando na vida (que são meus passatempos prediletos) voltando da minha formação, às 22h30, no 638, linha que liga a Pça Saens Peña ao respeitoso bairro de Marechal Hermes.

Sim, ser piloto de um 638 exige nobreza d’alma. Eu respeito. Tanto que, se você é um leitor atento, percebeu que eu usei a palavra piloto em vez de motorista. Pescou, pescou?

Eis que no final da avenida suburbana, duas moçoilas entram no veículo. Estava tão capturada pela voz da Amy Winehouse das antigas que nem dei muita trela. Recomendo Know you now. É algo.

Havia apenas 7 pessoas no ônibus. Com o piloto (rá) e o trocador, éramos 9. Com as duas, 11. Ou seja, tinha lugar pra dedéu sobrando. Uma delas senta-se ao meu lado. Estranhei. Será que essa moça é tão fissurada assim no banco alto? Mas tem dois ali do outro lado, ó, vaziinhos! Hummm... Será que ela quer ser minha amiga? Será que ela só quer se aquecer numa noite fresca de inverno? Será que me achou bonitinha?

O piloto finalmente entrou em Cascadura. Engraçado, não sei porque, mas este nome sempre me lembrou barata. Eu, hein. Enfim. Vi que a moça olhou pra mim e começou a articular umas palavras. Tive que usar a técnica da leitura labial porque como eu já disse, a Amy estava bombando no meu tímpano. "Oi, você está no orkut?". Opa. Não, não era isso.


- Fica quietinha senão eu vou te esculachar.

Gente, mas eu estava quietinha. Juro. Se eu tivesse ensaiando o "vem qui vem qui vem quicando" (recomendo abaixar o som) , ok.
De qualquer maneira, confesso que a linguagem dos populares me toca.

- Agora passa o telefone.

Opa, tá na mão.

- Agora me dá todo dinheiro que você tem na sua carteira.

Se a minha vida depender disso, adeus mundo, pensei.

- Olha só, eu só tenho 2 reais.

Abri a carteira e jazia solitária a tal nota.

- Você quer? (afinal, perguntar não ofende)

Vi que ela titubeou. Porque naquela circunstância era igual a bater em cego. Se ela aceita, é mendigaria demais. Se não aceita, perde a moral comigo. Como poderia ser resto da abordagem?


Ela pegou os dois reais. Me deu uma vontade quase incontrolável de dizer "Iááááá, tá pior que eu!". Disse "quase".

- Nem pensa nisso, hein. Fecha logo esta janela.
- ANH?

Será que ela achou realmente que eu ia me jogar pela janela? Pior: será que ela achou que meu quadril passaria por aquela fresta? Nem quando eu tinha 11 anos, moça. Fica tranqüila.

- Cadê? Tem mais dinheiro aí que eu sei.

Hahahahahahahahahah. Não, moça, não tem e você acabou de cair na pegadinha do Mallandro!!!

- Tem estas moedinhas aqui, quer? (Desmoralizar ladras é meu terceiro passatempo predileto)

- Não, não... Pode ficar... Tá. Agora... é... hummmmm... AGORA TIRA O ANEL.

- Esse anel aqui eu comprei na feirinha.

- Tira-o-anel.

Tirei. Ele me custou módicos 8,50.

Aí ela desistiu de mim, porque percebeu que meu celular era a melhor coisa que eu tinha no momento. Eu tinha o Seminário 15 do Lacan. Mas aí eu é que ia esculachar. E o melhor é que eu não paguei nem 1 realzinho pelo celular. Ou seja, a moça me tirou a incrível quantia de ... tchanaamaaaam 10,50. Não dá nem pra um lanche do Mc Donalds.

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(repostando, porque vai ter a continuação! :D)

4 ficando fora de si:

Mariano disse...

vc foi assaltada novamente?
Para!
Tah brincando?

Mariano disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Pedro disse...

Continuação? Oba!

a louca disse...

Adorei!... Não o fato de você ter sido assaltada (novamente), mas as tuas narrações são ótimas!

Beijos!