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20.6.09

Plágio

Não sou eu quem me navega, quem me navega é amar.


23.4.09

Ao meu amor que ainda não chegou



Tá bom, tá bom tá bom. Eu já entendi. É difícil. Leva tempo. Dá trabalho. Que eu não vou ter de mão beijada. Que eu vou ter que querer muito, com o corpo todo. Com o desejo todo. Que não vai dar pra ser mais ou menos, que não é possível ter medo, que eu vou ter que me jogar mesmo com a grande possibilidade de me estabacar. E você também vai se jogar. Que não vai dar pra ser tranquilo, porque amor não combina com tranquilidade. Mas eu nunca quis mesmo a tranquilidade. Eu tenho fome, ânsia Eu sou voraz. Eu sei do desconforto que é. E eu quero. Com força. E com tanta alegria que nem sei. 

Mas esta parte, meu amor que ainda não chegou, eu já sabia. 

Eu sei essas coisas, todas as vezes que confundo esse monte de Zé Ruelas com você. Eu me reconheço precisamente aí todas as vezes que eu sinto um cheiro que parece com este seu que eu ainda não conheço. Ou ouço uma voz que imagino sua. Ou encontro um toque que quero que seja o seu.

Vem logo e busca todas as gargalhadas que eram suas, mas por ansiedade minha entreguei pros anteriores. E, também por ansiedade, entreguei já tantos beijos mais apaixonados. Meu carinho. Tudo que eu tenho de mais precioso. 

Não quero mais perder o tempo da alegria toda. Vem logo e toma o que é teu. Só teu.

16.4.09

Meia vida





Chegou um momento da minha vida em que eu achei que tudo já tinha acabado. Casamento sólido de décadas, filhos adultos criados, formados, empregados e casados. Netos crescendo. Bem colocada profissionalmente. O que restava? Foi lá pelos 50 anos. Um pouco mais, talvez. Eu mesma faço hoje 52. Na verdade, é um cansaço. Mas não é um só uma canseira besta qualquer. É um pouco pior: a gente cansa de gente. 

Bom, pra começo de conversa, eu cansei de mim. Cansei das rugas, dos cabelos brancos, do corpo que despencava. Tudo ia se desorganizando à minha revelia e a vida poderia ficar em função é ir catando os cavacos que o tempo impunha. Mas isso é o de menos, com vaidade e um pouco de vista grossa nunca me ocupei demais com isso. 

Piorou. 

Eu cansei de pessoas. E das mais próximas. Cansei do Arlindo, da sua voz e do cheiro que ele deixa no banheiro toda manhã. Não, não deixei de amá-lo. Eu só me cansei mesmo. Cansei das suas camisas penduradas no seu armário organizadas em tons degradé. E nem sou eu que arrumo. Cansei da minha filha. Da sua falta de maturidade em levar o casamento, de como ela consegue ser mimada e irritante e da sua inabilidade em dizer não aos meus netos. Dos quais eu cansei também. Cansei da bagunça e da gritaria, cansei ter que fingir que sou a "vovó legal". Cansei do meu genro. Mas pra ele, coitado, eu nunca tive muita paciência mesmo, sempre o achei um banana. Cansei do meu filho e da sua vida aparentemente perfeita, sua esposa linda e seus filhos arrumados. 

Cansei da bagunça, cansei da arrumação, cansei de voz de gente, cansei de som de passarinho. CAN-SEI.

Piora.

"Vamos comemorar seu aniversário no sítio", diz o Arlindo, imperativo como sempre. Chega a ser engraçado como as coisas mudam. Quando nos casamos, há 30 anos, era isso que me fazia ser desesperada de amor por ele. Toda vez em que ele se dirigia a mim mandando, eu tremia. E obedecia. Agora o que sinto pode ser traduzido como uma espécie de ânsia. Mas eu cansei de brigar e o tempo sempre traz de presente pra gente uma coisa preciosa, a resignação. Depois de alguns anos de vida familiar, minha poesia predileta deixou de ser o soneto de separação e passou a ser aquela do Leminsk:

não discuto
com o destino
o que pintar
eu assino.

Simples, assim. 

E aqui estou desde ontem. Não lembro nem quando foi a última vez que proferi uma palavra. Provavelmente no almoço de ontem, com a Dora. Pedi para que trouxesse água. Depois me tranquei no quarto e tentei alcançar a paz na varanda. Tarefa imediatamente abortada pelos meus netos que, tadinhos, só queriam brincar com os cães. 

Cansada, impaciente, azeda, infeliz, facilmente irritável. E com sono, muito sono. A morte seria mais suave.

Acordei hoje, domingo. Dia lindo e ninguém ainda acordado. Era tão evidente o desconforto de todos da casa com a minha presença-ausência que eu resolvi me ausentar. Fui ao quartinho das tranqueiras e peguei a vara de pescar. Nunca havia pescado antes e não seria agora a primeira vez, naturalmente. Só queria mesmo era uma bos desculpa para afastar todo o rancor gratuito daqueles que eu amo. Porque de uma hora pra outra, eu me sensibilizei com os olhares desentendidos das pessoas. E quis chorar. Na verdade, chorei, trancada no banheiro e com o chuveiro aberto. Não lembro de ter sentido tanta vergonha assim na vida. 

E foi ali, na solidão do sol a pino, onde me dei conta que tudo que eu vinha sentindo não era a vida fechando suas portas para minha existência. Não era o fim das perspectivas, a desesperança que me soterrava em cansaço. Era o inverso. Toda irritação e tristeza tinham o nome mais bonito. Ali, pro meu espanto e êxtase, me redescobri mãe. 

13.4.09

Repostando: as mentiras que as mulheres contam.





Achei esta foto quando revirava aquela gaveta esquecida do armário do quarto de hóspedes. É, a minha casa tem um quarto de hóspedes. Se você pudesse ler esta carta, iria gargalhar alto e dizer que eu me transformei numa daquelas “monstrinhas pequeno burguesas do Leblon”. E eu iria rir mais alto e te responderia, petulante como sempre te foi mais aprazível: você quem me transformou nisso.

O fato é que eu achava que pessoas da minha idade não eram mais surpreendidas por qualquer sombra da angústia. Achei que a velhice fosse me trazer o rastro da paz, retalhos de serenidade. Mas, neste dia em que eu reencontrei o meu passado, fui assaltada por alguma coisa que ainda persiste em mim e que eu desconhecia: a vontade sem nome, o desespero que acossa e nos manda ir, sem nos apontar para onde. Resolvi começar uma faxina que eu já sabia interminável.

A possibilidade de tocar a morte com a pontinha do dedo me arrepia a nuca toda as vezes que abro os olhos pela manhã. E eu não sei se fico aliviada por me restar vida ou pela morte estar um dia mais perto. Aprender a conviver com a tortura diária que é fazer as pequenas coisas cotidianas é um exercício que exige persistência, coragem e paciência. Uma dor austera acaricia todos os limites do meu corpo. E ele, flácido e pendurado, já não mais responde ao desejo. O tempo dá outra perspectiva sobre nós mesmos: a vida torna-se opaca.

Sempre olhei, soberba, aquele amontoado de velhos, todas as pelancas pendendo sobre mesas de dominó nas praças. Tinha certeza que, por saberem-se no final das suas horas, só lhes restava mesmo esperar. Essa coisa que pulsa não incomodaria mais e a existência passaria a ser regida pelos pares de pedrinhas pretas. Seria o caso apenas de permitir que a morte os alcançasse. Estava enganada. Naquela manhã de quarta-feira não fui capaz de desviar da vida, assim como os velhos que jogam dominó às oito da manhã na Antero de Quental também não são.

A velhice não traz apenas coisas dignas de dó. A perda da memória, por exemplo, é uma dádiva. É claro que quando ela chegou, eu resmunguei, briguei, fiquei mais amarga que o habitual. Depois percebi que era uma luta perdida e que me restava, então, extrair dela alguma coisa que me fizesse sorrir. Por exemplo, poder se surpreender com cheiros já conhecidos, com texturas que já fizeram parte da minha intimidade, com sons, acordes. Eu não fazia a mais vaga idéia de como era maravilhoso poder me tropeçar em palavras já conhecidas e me apaixonar por elas como na primeira vez que as encontrei. Imagine experimentar a fascinação pelas coisas já amadas! Eu não lembrava, por exemplo, como era divertido lavar o box do banheiro. Sabia que no dia seguinte não me levantaria da cama, mas eu já me fiz de idiota tantas vezes por motivos tão menos nobres... Não declinaria diante deste. Coloquei na vitrola um LP esquecido da Alcione cujo nome eu achei combinar com a situação: chamava-se Resistência.

Lavei cada ladrilho, rejunte e frestas com a escova de dente do falecido Arlindo, que ainda estava no armário do banheiro. Fiz questão de me demorar ali só para sentir a água gelada escoando por todas as ranhuras que as unhas do tempo lapidaram na minha pele. Terminado o banheiro, eu já estava exausta, mas ainda eram dez e meia da manhã. O dia ainda se estendia longo à minha frente e eu não sabia mais o que fazer, embora alguma coisa tivesse que ser feita.

O quarto de hóspedes sempre me foi o menos camarada. Poucas vezes na vida entrei ali por causa do efeito que este papel de parede estampado com rosas cor-de-rosa me causava. Era um misto de ânsia com irritação, não sei se tem um nome preciso para isso. Ele, o quarto, fazia parte do rol de exigências do Arlindo, que achava elegante ter um aposento para visitas, mesmo que nunca recebêssemos em casa. O fato é que, além de não nos servir de muita coisa, ele funcionava como o arauto da nossa existência classe média: foi nele que depositei boa parte das minhas memórias. Parte das minhas boas memórias, melhor dizendo. O Arlindo não podia saber do meu passado e foi no fundo daquele armário rosa bebê que ele, o passado, ficou.

Menti durante entediantes cinqüenta anos de casamento.

E, confesso, fui uma mentirinha bem convincente de vestidos floridos na altura do joelho, cabelos castanhos domados num coque, escapulário no peito. Eu fui uma das senhoras mais decentes do Leblon.

Foi você quem me ajudou a transformar nisso.

Abri o armário do quarto de hospedes sem saber que ele continha a emoção guardada há mais de cinqüenta anos. E ela veio toda de uma vez, sem o menor garbo. Senti o calor do teu hálito, o cheiro do teu cigarro barato. Foi você quem bateu esta foto. Eu tinha me descuidado e acabei dormindo contigo. Acordei já bem pra lá das oito da manhã. Tentei não te acordar, eu não queria falar com você, ter que te encarar. Tudo ficava mais simples quando nós não tínhamos que nos encontrar no dia seguinte: você permanecia intocável, meu James Dean particular. Saí da cama de leve, mas nervosa. Cheguei na sala atrapalhada, procurando as roupas e precisei fumar. Parece que você acordou com o cheiro e me seguiu através dele. Eu me virei e você sorria. Ali, eu tive certeza que tinha acabado: você não já não tinha mais o charme daqueles que não amam.

Até então, eu achava que desamor doer era meramente uma licença poética idiota. Como eu era arrogante. Para não chorar na sua frente, inventei qualquer coisa estúpida para sumir dali rápido. Disse que ia à padaria comprar pães pro nosso café da manhã romântico. Você acreditou e, orgulhoso, me jogou as chaves do seu carro. Eu saí da sua casa ainda meio tonta, com o coração rasgado e sabendo que não teria mais qualquer saída possível: você já não era mais aquele por quem eu tinha me encantado. Só me restava comprar os pães e interpretar mais meia hora a jovem-rebelde-feliz. Entrei no carro, virei a chave. Ouvi você me gritar da porta. Te olhei e você tirou esta foto. Nela, vejo todo o terror, toda tristeza e o maior amor do mundo que tinha acabado de ser perdido. Ela é a materialização do extermínio das minhas fantasias românticas.

Fui à padaria, comprei cinco pães franceses e um doce. Voltei para sua casa. Comemos, conversamos, você insistiu para que eu ficasse tantas vezes e eu, só, precisava chorar. Você não cabia mais.

Você ainda foi ao Instituto de Educação algumas vezes procurando por mim, me esquivei de te encontrar em todas elas. Finalmente você desistiu e me mandou esta foto pelo correio. Fiz questão de esconde-la de mim mesma, não queria esbarrar na saudade de uma época em que tudo parecia mais bonito. Fui covarde em não jogá-la fora, admito.

Logo em seguida, conheci o Arlindo.

E como eu já não acreditava mais no amor, me casei com ele.

_____________________

Texto publicado dia 13.11.08. 
Tenho um orgulho giga deste texto, aí to aproveitando a maré de visitas pra... pra... pra parecer que eu escrevo bem! hahaha

Mó correria, ainda sem tempo de escrever. Esta semana vai ter coisa nova, prometo. Notem: era pra hoje e já estiquei o prazo pro resto da semana. Briguem com o Tyzsler, psicanalista francês que tá dando o ar da graça aqui no Rio e nos presenteando com zilhões de seminários de graça. Aeeeeee!

21.11.08

Essa é a minha lembrança mais gasta: tinha quatro anos.

Era um daqueles domingos de verão, almoço em família. Na verdade, o almoço mesmo tinha acabado já há horas. Estávamos todos na varanda, numa tentativa de diminuir o calor com conversa. Redes, almofadas, algumas xícaras de café e carinho.

Aos quatro anos de idade, momentos como aquele faziam com que pertencesse em pé de igualdade ao mundo daquelas pernas compridíssimas que acabavam sabe-se lá aonde.

De súbito, perguntei:

- Mãe, como eu nasci?

O irmão mais velho, já com vinte anos, esticado no chão num dos cantos da varanda, me responde:

- Você foi a segunda garrafa de vinho!

Todos riram. Essa foi umas das frases que permaneceram coladas em mim como mistério por anos. Afinal, como eu poderia ser uma garrafa de vinho? Como? A interrogação ficou bordada no meu rosto. Minha mãe, sempre sensível, estava na rede e me tomou pelos braços me colocando no seu colo.

Entre cafunés, disse:

- Filha, você chegou de surpresa! Nós não achávamos mais que eu pudese engravidar... Seus irmãos já eram bem crescidos. Olha só como eles são grandões e você, tão pequenininha! Aí, pensamos se queríamos você ou não. Quisemos! Escolhemos seu nome, o nome da sua bisavó. Você nasceu e está aqui com a gente hoje!

Lembro de ficar tão assustada que a única alternativa que me sobrou era recorrer à pergunta que faço ainda tantas vezes depois destes vinte e tantos anos:

- E agora o que eu faço, mãe?

13.11.08

As mentiras que as mulheres contam





Achei esta foto quando revirava aquela gaveta esquecida do armário do quarto de hóspedes. É, a minha casa tem um quarto de hóspedes. Se você pudesse ler esta carta, iria gargalhar alto e dizer que eu me transformei numa daquelas “monstrinhas pequeno burguesas do Leblon”. E eu iria rir mais alto e te responderia, petulante como sempre te foi mais aprazível: você quem me transformou nisso.

O fato é que eu achava que pessoas da minha idade não eram mais surpreendidas por qualquer sombra da angústia. Achei que a velhice fosse me trazer o rastro da paz, retalhos de serenidade. Mas, neste dia em que eu reencontrei o meu passado, fui assaltada por alguma coisa que ainda persiste em mim e que eu desconhecia: a vontade sem nome, o desespero que acossa e nos manda ir, sem nos apontar para onde. Resolvi começar uma faxina que eu já sabia interminável.

A possibilidade de tocar a morte com a pontinha do dedo me arrepia a nuca toda as vezes que abro os olhos pela manhã. E eu não sei se fico aliviada por me restar vida ou pela morte estar um dia mais perto. Aprender a conviver com a tortura diária que é fazer as pequenas coisas cotidianas é um exercício que exige persistência, coragem e paciência. Uma dor austera acaricia todos os limites do meu corpo. E ele, flácido e pendurado, já não mais responde ao desejo. O tempo dá outra perspectiva sobre nós mesmos: a vida torna-se opaca.

Sempre olhei, soberba, aquele amontoado de velhos, todas as pelancas pendendo sobre mesas de dominó nas praças. Tinha certeza que, por saberem-se no final das suas horas, só lhes restava mesmo esperar. Essa coisa que pulsa não incomodaria mais e a existência passaria a ser regida pelos pares de pedrinhas pretas. Seria o caso apenas de permitir que a morte os alcançasse. Estava enganada. Naquela manhã de quarta-feira não fui capaz de desviar da vida, assim como os velhos que jogam dominó às oito da manhã na Antero de Quental também não são.

A velhice não traz apenas coisas dignas de dó. A perda da memória, por exemplo, é uma dádiva. É claro que quando ela chegou, eu resmunguei, briguei, fiquei mais amarga que o habitual. Depois percebi que era uma luta perdida e que me restava, então, extrair dela alguma coisa que me fizesse sorrir. Por exemplo, poder se surpreender com cheiros já conhecidos, com texturas que já fizeram parte da minha intimidade, com sons, acordes. Eu não fazia a mais vaga idéia de como era maravilhoso poder me tropeçar em palavras já conhecidas e me apaixonar por elas como na primeira vez que as encontrei. Imagine experimentar a fascinação pelas coisas já amadas! Eu não lembrava, por exemplo, como era divertido lavar o box do banheiro. Sabia que no dia seguinte não me levantaria da cama, mas eu já me fiz de idiota tantas vezes por motivos tão menos nobres... Não declinaria diante deste. Coloquei na vitrola um LP esquecido da Alcione cujo nome eu achei combinar com a situação: chamava-se Resistência.

Lavei cada ladrilho, rejunte e frestas com a escova de dente do falecido Arlindo, que ainda estava no armário do banheiro. Fiz questão de me demorar ali só para sentir a água gelada escoando por todas as ranhuras que as unhas do tempo lapidaram na minha pele. Terminado o banheiro, eu já estava exausta, mas ainda eram dez e meia da manhã. O dia ainda se estendia longo à minha frente e eu não sabia mais o que fazer, embora alguma coisa tivesse que ser feita.

O quarto de hóspedes sempre me foi o menos camarada. Poucas vezes na vida entrei ali por causa do efeito que este papel de parede estampado com rosas cor-de-rosa me causava. Era um misto de ânsia com irritação, não sei se tem um nome preciso para isso. Ele, o quarto, fazia parte do rol de exigências do Arlindo, que achava elegante ter um aposento para visitas, mesmo que nunca recebêssemos em casa. O fato é que, além de não nos servir de muita coisa, ele funcionava como o arauto da nossa existência classe média: foi nele que depositei boa parte das minhas memórias. Parte das minhas boas memórias, melhor dizendo. O Arlindo não podia saber do meu passado e foi no fundo daquele armário rosa bebê que ele, o passado, ficou.

Menti durante entediantes cinqüenta anos de casamento.

E, confesso, fui uma mentirinha bem convincente de vestidos floridos na altura do joelho, cabelos castanhos domados num coque, escapulário no peito. Eu fui uma das senhoras mais decentes do Leblon.

Foi você quem me ajudou a transformar nisso.

Abri o armário do quarto de hospedes sem saber que ele continha a emoção guardada há mais de cinqüenta anos. E ela veio toda de uma vez, sem o menor garbo. Senti o calor do teu hálito, o cheiro do teu cigarro barato. Foi você quem bateu esta foto. Eu tinha me descuidado e acabei dormindo contigo. Acordei já bem pra lá das oito da manhã. Tentei não te acordar, eu não queria falar com você, ter que te encarar. Tudo ficava mais simples quando nós não tínhamos que nos encontrar no dia seguinte: você permanecia intocável, meu James Dean particular. Saí da cama de leve, mas nervosa. Cheguei na sala atrapalhada, procurando as roupas e precisei fumar. Parece que você acordou com o cheiro e me seguiu através dele. Eu me virei e você sorria. Ali, eu tive certeza que tinha acabado: você não já não tinha mais o charme daqueles que não amam.

Até então, eu achava que desamor doer era meramente uma licença poética idiota. Como eu era arrogante. Para não chorar na sua frente, inventei qualquer coisa estúpida para sumir dali rápido. Disse que ia à padaria comprar pães pro nosso café da manhã romântico. Você acreditou e, orgulhoso, me jogou as chaves do seu carro. Eu saí da sua casa ainda meio tonta, com o coração rasgado e sabendo que não teria mais qualquer saída possível: você já não era mais aquele por quem eu tinha me encantado. Só me restava comprar os pães e interpretar mais meia hora a jovem-rebelde-feliz. Entrei no carro, virei a chave. Ouvi você me gritar da porta. Te olhei e você tirou esta foto. Nela, vejo todo o terror, toda tristeza e o maior amor do mundo que tinha acabado de ser perdido. Ela é a materialização do extermínio das minhas fantasias românticas.

Fui à padaria, comprei cinco pães franceses e um doce. Voltei para sua casa. Comemos, conversamos, você insistiu para que eu ficasse tantas vezes e eu, só, precisava chorar. Você não cabia mais.

Você ainda foi ao Instituto de Educação algumas vezes procurando por mim, me esquivei de te encontrar em todas elas. Finalmente você desistiu e me mandou esta foto pelo correio. Fiz questão de esconde-la de mim mesma, não queria esbarrar na saudade de uma época em que tudo parecia mais bonito. Fui covarde em não jogá-la fora, admito.

Logo em seguida, conheci o Arlindo.

E como eu já não acreditava mais no amor, me casei com ele.

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Aguardem, quatro leitores. Vem coisa nova por aí! :)

3.11.08

Pretérito de um futuro mais-que-perfeito.

E eu choraria sereno, fino. Quieta. Aquelas lágrimas impossíveis de amor vertendo, condensado. E você já saberia que, em casos como esse, aconselhável é não falar. Apenas me tomaria como coisa certa, coisa nova. E, com toda a calma que esse momento pediria, me redescobriria devagar: meu rosto, cabelo, minha orelha, nuca e me faria devagar qualquer coisa emocionada.

De sopetão, livraria-se dos lençóis e levantaria-se da cama. Voltaria-se sorrindo e terno e, como se eu fosse criança boba sem entender o porquê daquilo, faria “peraí”, sacudindo pequeno a palma da mão aberta. Eu ficaria ali na sombra do teu sorriso, te admirando orgulhosa. E você nem se demoraria escolhendo o CD.


Discover Nina Simone!
(aperte o play!)



Voltaria-se com passos rápidos e, antes que o piano começasse a tocar, me estenderia a mão. Levantaria-me e te abraçaria com toda vontade que pudesse reunir ali. E dançaríamos tanto e tão miúdo, que até perderia a conta do tempo.

Nenhuma palavra precisaria ser evocada e eu saberia que a escolha a certa.


10.10.08

Remixando Arnaldo


O amor é lindo. O amor é livre.


Se tudo pode acontecer, se pode acontecer qualquer coisa, qualquer curva de qualquer destino que desfaça o curso de qualquer certeza. Pode alguém aparecer e acontecer de ser você.

De tanto olhar você, meu olho se enamorou. Só de imaginar, meu olho inventou o amor. Conhece o amor, já deve supor que apaixonou alguém.

É só você que vem no meu cantar, meu bem. É só pensar que vem lararará. Tô louca pra fazer um rock pra você, tô punk de gritar seu nome sem parar. Tô louca pra fazer um funk pra você. Um samba pra você, um rock’n roll to me. Pra todo mundo usar, pra todo mundo ouvir, pra quem quiser chorar, pra quem quiser sorrir. Tá consumado. E tá consumido.

Eu e você, você e eu por perto, pra todo dia dividir carinho. Nós dois sozinhos num lugar deserto. Eu sei que eu ia te fazer feliz dos pés até a ponta do nariz, da beira da orelha ao fim do mundo, sugando o sangue de cada segundo. Te dou um filho, te componho um hino. O que você quiser saber, eu ensino.Te dou amor enquanto eu te amar, prometo te deixar quando acabar.

Me cobre mil telefonemas, depois me cubra de paixão. Imaginei roupa de baixo, boca de baba. Imaginou roupa molhada, boca de água. Pisando no céu do chão, parada no seu portão, eu peço pra entrar, eu posso passar. Espero sua permissão. Imaginou? Imaginei roupa de baixo, boca de baba. Me pegue bem, misture alma e coração.

Se você não quiser, me viro como der. Mas, se quiser, me diga, por favor. Pois se você quiser, me viro como for para que seja bom como já é.

O amor é sujo. Tem cheiro de mijo.

Qualquer curva de qualquer destino que desfaça o curso de qualquer certeza.

Onde fostes depois de me abandonar? Por que veio se foi para ir? Por que você me deixou tão sozinha? Onde fostes depois de me apaixonar? Por que não demorou mais um pouco e deixou que eu achasse de novo o caminho?

Por que você me deixou tão sozinha? Me deixe, sim, mas só se for pra ir ali e pra voltar.

Me deixe só até a hora de voltar.

Me esqueça sim, que eu quero ver você tentar sem conseguir. Agora as noites são tão longas. No escuro eu penso em te encontrar. Um dia desses você vai ficar lembrando de nós dois e não vai acender a luz do quarto quando o sol se for. Bem abraçado no lençol da cama, vai chorar por nós, pensando no escuro ter ouvido o som da minha voz. Vai acariciar seu próprio corpo e, na imaginação, fazer de conta que a sua agora é a minha mão.

No cine-pensamento eu também tento reconstituir as coisas que um dia você disse pra me seduzir. Enquanto na janela espero a chuva que não quer cair, o vento traz o riso seu que sempre me fazia rir.

E o mundo vai dar voltas sobre voltas ao redor de si até toda memória dessa nossa história se extinguir, e você nunca vai saber de nada que eu senti sozinha no meu quarto de dormir.

Não devias partir. Por que não duraste a vida inteira? Pra onde eu vou agora, livre, mas sem você? Qualquer curva de qualquer destino que desfaça o curso de qualquer certeza.

Pra onde ir, o que fazer, como vou viver?

Às vezes tiro me destino da minha mão. Eu gosto de ficar só, mas gosto mais de você. Talvez te ame sem você.

Talvez baste o chão. Talvez mate o que fui e imite o que sou.

Talvez eu fique feliz, talvez perca a cabeça e fique feliz sem você.

Talvez eu tema o que vem. Ter saudade no final da tarde para quando escurecer, esquecer.

Caminhar. Se chover, tomar chuva. Respirar, sentir o sabor do que comer.

Mas se quiser, me diga, meu amor. Qualquer coisa, qualquer coisa que não fique ilesa. Qualquer coisa, qualquer coisa que não fixe.




____________________

Eu queria colocar ali do lado "o verso da semana" e me dei conta que levaria eras só com versos do Arnaldo Antunes. Comecei a juntar uns versos e gostei da história de fazer um texto só com a poesia do meu titã predileto.

Se quiser tirar a prova dos 9, as músicas são as seguintes: Se tudo pode acontecer, Qualquer, Imaginou, Grão de Amor, Velha Infância, Pedido de Casamento, Consumado, Onde estavas, lugar, Quarto de dormir, Sem você, Num dia.

UP DATE: Blipei todas!

(tente montar o quebra-cabeça!)

(só mudei o gênero de algumas palavras pra combinar!)

3.10.08

Don't you shiver?

Por onde você anda, hein? Já largou aquela insossa? Hein? Larga ela e volta pra mim, vai.

Consigo ainda sentir a tua barba e teu cheiro de desodorante de farmácia. Toda a sua alegria, suas gírias, sua verdade e todos os anos que ainda não te alcançaram. Sinto saudade.

But on and on
from the moment I wake
To the moment I sleep
I'll be there by your side
Just you try and stop me
I'll be waiting in the line
Just to see if you care

Você cantou isso pra mim 657 vezes na mesma noite. Era seu aniversário. Eu lembro com riqueza de detalhes: todos éramos só eu e você, mesas vazias, latas espalhadas por todo lugar, que acabavam compondo a harmonia, luzes acesas. E a música. Eu te dei uma camiseta, uma garrafa de tequila, uns limões. Mas o presente maior foi meu: sua gargalhada e as palavras. Foi a primeira vez que você me disse que me amava. E toda toda toda vez que eu canto esta música penso em você. Eu ainda penso em você muitas vezes. Te procuro ainda pra te achar sem querer. Como naquele dia na faculdade: você estava barbado e eu, de escova. Eu te gritei e você elogiou meu cabelo novo. Senti mais uma vez o cheiro de desodorante de farmácia. Minha narcose.

Oh, did you want me to change?
Well I've changed for good
And I want you to know that you'll always get your way
And I wanted to say

E eu queria te dizer que eu mudo: que eu tiro a nuvem dos 28 anos do meu rosto, que te sorrio sempre, todas as vezes em que você precisar, que pra te deixar feliz, eu fico bêbada contigo todo final de semana, que te amo sem cobrança e com alegria.


Hein? Vem?


Discover Coldplay!

5.8.08

Sobre o impossível do humano ou papo de surdo e mudo.

- Já que você se diz tão esperta, me diga. Que número vem depois de 0,897?
- Moleza: 0,8971
- Tem certeza?
- Claro. Bocó.
- Não poderia ser 0,89701?
- Hummmmmm... Poderia. Poderia ser ser também 0,897001
- É, poderia. Poderia ser também 0,8970001...
- Vem cá, onde vc quer chegar?
- Se irritou, né?
- Um pouco.
- Agora veja você. Você vive brigando comigo dizendo que eu não te entendo, que tudo pra mim é complicado, que eu sempre crio caso, ou faço questões com as coisas mais bestas.
- É mentira?
- Deixa eu terminar. Aí eu te provo por a+b - literalmente - que nem na matemática as coisas são assim, tão simples.
- E o que tem a ver a matemática com as calças?
- O que tem a ver é que se com números a gente se entende quase nada, imagina com as palavras.
- ...
- Rá, te peguei.

4.8.08

Na feijoada




Eu estava apaixonada. Não, apaixonada é muito forte. Imagina: eu, apaixonada... Rá. Mulheres modernas não se apaixonam. Vamos reformular! Estava querendo só dar uns pegas... Assim, coisa leve. Descompromissada. Moderna. Aliás, pós-moderna. Ultra-contemporânea. Uns beijinhos. Só isso.


MENTIRA! Estava caidinha mesmo. Bastava, por exemplo, olhar para os cabelos dele e vinha um pensamento nefasto, como Nossos filhos terão cabelos de qualidade! . Revisava a minha assinatura, já com o sobrenome dele, imaginava nosso cotidiano. Era dia e noite pensando nele. Ininterruptamente. E em loop. O que seria, de fato, um inferno na terra, caso ele não fosse ele. Mas ele ERA ele. O que imediatamente, me lançava instantaneamente e sem escalas pro paraíso.


Por exemplo, quando eu achava que dormir seria uma ótima solução, só pra minha vida ter uma outra razão além dele, lá estava o próprio, em todos os meus sonhos. E lá ríamos, conversávamos. Delícia. Isso quando, evidentemente, eu dormia. Era muito melhor ficar acordada, ligadona, pensando nele. Vivia eufórica... Parecia que tinha tomado 50mg de qualquer anfetamina barata de uma vez.
Lia Vinicius de Moraes e pensava nele. Ouvia Maria Bethânia e sonhava em declamar aquilo tudo pra ele. E diga-se de passagem: até um Bruno e Marrone me fazia lembrar daquele rapaz Assistia os filmes mais imbecis e pensava nele. Até mesmo quando eu, nas minhas incontáveis noites de insônia, assistia “A Fogueira Santa de Israel”, eu jurava vê-lo ali, como um dos fiéis, gritando “queimaaaaa”. Porque eu não sei se você já teve este tipo de experiência, mas quando eu tô caidinha por alguém, eu vejo a pessoa em qualquer lugar que meu olhar possa alcançar. Obviamente é apenas uma alucinação da minha mente carente/psicótica. Aí é um tal de viver em quase-síncope o tempo inteiro, porque eu acho que vejo, meu coração já dispara. Ainda bem que meu coração anda – biologicamente - numa boa.
Mas o caso é que até este momento, necas... Nem um beijinho. Só flerte.


Certa vez, ele me chama pelo messenger.

- Oiiiiiiiiiiiiiii!!!!
- Uau, que animação! Tudo bem?
- Tudo! Vc ta sabendo... sábado tem feijoada da Portela.
- Claro que eu to... hehehe...
- Vc vai?
- Vou! Vc vai tambéééémmmm?
- Por que este “tambéééém” histérico???? HAHAHAHA
- Ai... vc vai ou não vai?
- Olha o pití...
- Hein, hein, hein?
- Vou… Por que?
- Nada, não. Só curiosidade. Tava achando que você poderia me pagar uma cerveja lá. Aquela caloreba toda, sabe?
- É, vou pensar no seu caso.
- ... (na verdade, neste momento, eu queria ter mandado um coraçãozinho batendo forte... pois como você, leitor, pode supor, eu estava quase tendo uma convulsão).
- Sábado eu te ligo!
- Beleza! (aquela que quer pagar de “não to nem aí”).
- Então tá... Até sábado! Beijooooooooooooooooo (será que este beijo enorme é sinal de paixão???)
- Beijão! (na boca, de língua, por todo seu corpinho moreno... gostoso!)

Era uma quinta-feira. De repente eu me vi submergindo em tantas pendências: emagrecer 10 kg em dois dias. Depilação da virilha (afinal, nunca se sabe... e de qualquer maneira, não era legal sair por aí parecendo uma peruca de biquíni). Hidratação do cabelo. Do cotovelo. Do calcanhar. Calcinha nova. Perfume na medida certa. Assim como a maquiagem. IMPORTANTE: lembrar de não passar da segunda latinha. Escutar nestes dois dias todos os sambas que der (pra parecer íntima do situação). Unha vermelha. A do pé. A da mão tem que ser branquinha. Roupa impecável e que combine com clima samba-suor-e-cerveja, sem parecer gratuita... Muito menos oferecida! Camisinha (afinal, nunca se sabe... e de qualquer maneira, era legal parecer uma mulher que se cuida). E por falar em se cuidar, o mais importante: ES-CO-VA-DE-DEN-TE. Acima de qualquer coisa, aquilo seria uma feijoada, vamos combinar.

No sábado, revisei todas as pendências:

- Unha? Impecável!
- Depilação? Pele lisinha!
- Roupa? Passada e cheirando a amaciante.
- Escova de dente, camisinha, rímel e gloss? Dentro da micro-bolsa que coordenada com o resto da vestimenta.
ARRASEI!
Lá pelas 3 da tarde chego na Portela. Ele liga em seguida. Já estava chegando. Eu estava comendo. Pânico. Larguei o lombinho e corri pro banheiro escovar o dente, passar o fio dental. Afinal, era hoje! HO-JE. Dali a meia hora talvez fosse um dos momentos mais felizes da minha vida, só comparando com o dia em que consegui meu primeiro emprego de carteira assinada. Neste dia, minha mãe até bateu foto.

O telefone toca mais uma vez.
- Nanda? Cheguei! Taonde?
- Errrrrr... to chegando na quadra.
- Ué, você não tinha chegado, doida?
- É, tinha. Tava o banheiro.
- Ah, ta! Já comeu?
- Já!
- Então, vamos fazer o seguinte... Eu vou comer, aí eu te ligo novamente, ta?
- Ta bem!
- Beijinho!
- Beeeeeijo!

Aiiiiiiiii, “beijinho”. Adorei o diminutivo! Que lindo! Ele estava apaixonado! Ele nem me chama de gatinha, coisa que eu odeio! Isso é um sinal divino! Que vontade de pular! E estava mesmo apaixonado! Uhuuuuuuuuuuuuulllllll!!!!

Depois de 1 hora de uma manada de elefantes pisoteando meu estômago, toca o telefone.

- Nandiiiiinha! (cheio de malemolência!). Acabei de comer, cadê você?
- To numa mesa a esquerda do palco!
- To indo a praí! Não vou te mandar beijo agora, não. Prefiro dar ao vivo.
(desmaiei)
- Nanda?
- Oi... hehe... tá muito alto o som aqui. O que você disse mesmo?
- Que eu to chegando!
- Ah, tá. To te esperando já há quase 2 horas! Vem logo!
- Já to te vendo daqui.

Passaram-se 15 segundos até ele chegar. Os 15 segundo mais demorados de toda a minha vã existência. Chegou dando um cheiro no cangote, o que eu amei, claro.
- Então, vamos tomar aquela...
As palavras de repente foram ficando cada vez mais baixas, mais baixas, tão baixas que eu nem escutei o resto da frase... Entrei em estado de choque anafilático quando me dei conta de que ali, em cima do seu canino, repousava, serena, uma enorme casca de feijão. Daquelas que a gente tem vergonha de falar pra pessoa que a porta de tão enorme que ela é... porque ela denuncia assim, diretamente, que a pessoa em questão é uma grande porca. Aliás, a pessoa não perguntou nem pro melhor amigo se a boca estava. Ok, amigos também servem pra este tipo de coisa, tive vontade de denunciar. SENHOR, AQUILO ERA UMA FEI-JO-A-DA! Eu me torturei numa depiladora pra este infeliz me aparecer aqui, com esta casca no dente??? Ah, não. Uma lágrima verteu do meu olho esquerdo e na minha caixa craniana ecoava, solitária, a palavra “merda”.

- Que foi, gatinha? Que cara é esta?
- Anh? Cara? Ah! Nada, não...

(na verdade, depois da décima quinta latinha, eu o avisei da existência da casca de feijão. O climinha “Alasca” dissipou-se. Nos pegamos ali mesmo. Ele, sem casca. Eu, com – muita - cerveja. Nos casamos quatro meses depois, no mesmo samba. Hoje temos um filho ruivo e um labrador chocolate).