16.4.09

Meia vida





Chegou um momento da minha vida em que eu achei que tudo já tinha acabado. Casamento sólido de décadas, filhos adultos criados, formados, empregados e casados. Netos crescendo. Bem colocada profissionalmente. O que restava? Foi lá pelos 50 anos. Um pouco mais, talvez. Eu mesma faço hoje 52. Na verdade, é um cansaço. Mas não é um só uma canseira besta qualquer. É um pouco pior: a gente cansa de gente. 

Bom, pra começo de conversa, eu cansei de mim. Cansei das rugas, dos cabelos brancos, do corpo que despencava. Tudo ia se desorganizando à minha revelia e a vida poderia ficar em função é ir catando os cavacos que o tempo impunha. Mas isso é o de menos, com vaidade e um pouco de vista grossa nunca me ocupei demais com isso. 

Piorou. 

Eu cansei de pessoas. E das mais próximas. Cansei do Arlindo, da sua voz e do cheiro que ele deixa no banheiro toda manhã. Não, não deixei de amá-lo. Eu só me cansei mesmo. Cansei das suas camisas penduradas no seu armário organizadas em tons degradé. E nem sou eu que arrumo. Cansei da minha filha. Da sua falta de maturidade em levar o casamento, de como ela consegue ser mimada e irritante e da sua inabilidade em dizer não aos meus netos. Dos quais eu cansei também. Cansei da bagunça e da gritaria, cansei ter que fingir que sou a "vovó legal". Cansei do meu genro. Mas pra ele, coitado, eu nunca tive muita paciência mesmo, sempre o achei um banana. Cansei do meu filho e da sua vida aparentemente perfeita, sua esposa linda e seus filhos arrumados. 

Cansei da bagunça, cansei da arrumação, cansei de voz de gente, cansei de som de passarinho. CAN-SEI.

Piora.

"Vamos comemorar seu aniversário no sítio", diz o Arlindo, imperativo como sempre. Chega a ser engraçado como as coisas mudam. Quando nos casamos, há 30 anos, era isso que me fazia ser desesperada de amor por ele. Toda vez em que ele se dirigia a mim mandando, eu tremia. E obedecia. Agora o que sinto pode ser traduzido como uma espécie de ânsia. Mas eu cansei de brigar e o tempo sempre traz de presente pra gente uma coisa preciosa, a resignação. Depois de alguns anos de vida familiar, minha poesia predileta deixou de ser o soneto de separação e passou a ser aquela do Leminsk:

não discuto
com o destino
o que pintar
eu assino.

Simples, assim. 

E aqui estou desde ontem. Não lembro nem quando foi a última vez que proferi uma palavra. Provavelmente no almoço de ontem, com a Dora. Pedi para que trouxesse água. Depois me tranquei no quarto e tentei alcançar a paz na varanda. Tarefa imediatamente abortada pelos meus netos que, tadinhos, só queriam brincar com os cães. 

Cansada, impaciente, azeda, infeliz, facilmente irritável. E com sono, muito sono. A morte seria mais suave.

Acordei hoje, domingo. Dia lindo e ninguém ainda acordado. Era tão evidente o desconforto de todos da casa com a minha presença-ausência que eu resolvi me ausentar. Fui ao quartinho das tranqueiras e peguei a vara de pescar. Nunca havia pescado antes e não seria agora a primeira vez, naturalmente. Só queria mesmo era uma bos desculpa para afastar todo o rancor gratuito daqueles que eu amo. Porque de uma hora pra outra, eu me sensibilizei com os olhares desentendidos das pessoas. E quis chorar. Na verdade, chorei, trancada no banheiro e com o chuveiro aberto. Não lembro de ter sentido tanta vergonha assim na vida. 

E foi ali, na solidão do sol a pino, onde me dei conta que tudo que eu vinha sentindo não era a vida fechando suas portas para minha existência. Não era o fim das perspectivas, a desesperança que me soterrava em cansaço. Era o inverso. Toda irritação e tristeza tinham o nome mais bonito. Ali, pro meu espanto e êxtase, me redescobri mãe. 

8 ficando fora de si:

Amanda disse...

Bem vindas as suas palavras!!!!

Carol disse...

Oba! :D

Teté disse...

Eiii Flor
Joinha?
Conheci seu blog através do gravatai. Adorei aqui, vou te linkar ok? Quero voltar ;]
Bom saber que vc é psicologa, talvez suas palavras possam me ajudar ;P
hahahahaha
Bjooos

NihH Holtz disse...

ooi floor
conheci seu blog tbm pelo Gravataí e vim te parabenizar por ser uma das blogueiras mais gatass!
me impressiona o qto teu blog eh mtu divertido!!
seu blog em si jah eh uma grande terapia!! :)
sou novata como blogueira, mas garanto q o teu blog eh mtuu interessante!! adorei esse post :)

bjs :*

Anônimo disse...

Apenas e só : Parabens!
Cumps
G
(Portugal)

Carol disse...

ô, seu Anônimo, volta aqui! :D

NihH e Teté, obrigada pelo carinho! Vou visita-las!

Beijinhos

Popysp© disse...

Carol,
Eu tô aqui literalmente emocionada com "Meia Vida"....
Você e as filigranas....
e eu, de algum modo, me encontrando nelas...
Boa corrida, Gatinha do Verão 2014!!
;) Cássia
http://twitter.com/Popysp

Anny disse...

Carol:
Descobri o seu bog porque a Cássia conseguiu descobrir as Filigranas de um texto que amei ler.
Parabéns!

Anny.
http://twitter.com/Annyllinha