21.11.08

Essa é a minha lembrança mais gasta: tinha quatro anos.

Era um daqueles domingos de verão, almoço em família. Na verdade, o almoço mesmo tinha acabado já há horas. Estávamos todos na varanda, numa tentativa de diminuir o calor com conversa. Redes, almofadas, algumas xícaras de café e carinho.

Aos quatro anos de idade, momentos como aquele faziam com que pertencesse em pé de igualdade ao mundo daquelas pernas compridíssimas que acabavam sabe-se lá aonde.

De súbito, perguntei:

- Mãe, como eu nasci?

O irmão mais velho, já com vinte anos, esticado no chão num dos cantos da varanda, me responde:

- Você foi a segunda garrafa de vinho!

Todos riram. Essa foi umas das frases que permaneceram coladas em mim como mistério por anos. Afinal, como eu poderia ser uma garrafa de vinho? Como? A interrogação ficou bordada no meu rosto. Minha mãe, sempre sensível, estava na rede e me tomou pelos braços me colocando no seu colo.

Entre cafunés, disse:

- Filha, você chegou de surpresa! Nós não achávamos mais que eu pudese engravidar... Seus irmãos já eram bem crescidos. Olha só como eles são grandões e você, tão pequenininha! Aí, pensamos se queríamos você ou não. Quisemos! Escolhemos seu nome, o nome da sua bisavó. Você nasceu e está aqui com a gente hoje!

Lembro de ficar tão assustada que a única alternativa que me sobrou era recorrer à pergunta que faço ainda tantas vezes depois destes vinte e tantos anos:

- E agora o que eu faço, mãe?

3 ficando fora de si:

caicko disse...

Hehhehe... lindo, isso. É autobiográfico mesmo?? Beijos, amôre. Voltei a ter tempo pro Albergue. Ótima semana.

Carol disse...

Não, nem é. Ouvi e achei bonitinha!

oscilantemente disse...

ahhhh, fiquei imaginando uma carol duartezinha que eu só conheço de fotos pequenas e textos grandes, rodeados de gente de perna comprida =)