10.11.08

Sem a palavra, de que adiantava ser bípede? Se não pudesse utilizar a linguagem para inventar alguma coisa e dividir o que inventasse, não passava mesmo de uma macaca, repetindo, imitando, regredia à caverna. A não ser que conseguisse usar outra linguagem. Cores, formas, linhas, texturas. Outras pontes de dentro para fora. Talvez a saída estivesse aí. Procurar nas tintas ou nos sons a maneira de encantar monstros, como a varinha de condão dos contos de fada. Ou como as palavras mágicas. Voltava sempre a elas.
...
Na ocasião, ela não tinha ainda descoberto que estava condenada a mergulhar no próprio sonho e ficar a ponto de se afogar nele, de tal maneira que ia precisar abrir uma comporta, uma válvula de escape, deixar sair pelo ladrão, para não pirar. Também não sabia que o sonho é tecido de realidade, que o bordado do desejo só existe nele se estiver apoiado no pano da memória, para não ficar flutuando no ar. Só aos poucos, mais recentemente, é que tinha compreendido que estava fadada a buscar esse salto de dentro para fora, de si mesma para os outros, numa comunhão de fantasmas. O problema é que não tinha como compartilhar este mundo interior sem as palavras.

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Tenho absoluta certeza que não fui eu quem escreveu este texto. Era um arquivo esquecido aqui no computador que eu abri sem querer. Achei tão lindo, mas tão lindo, que resolvi postar sem saber a autoria. Se alguém tiver uma pista, por favor, me diga. Gosto de dar créditos. :D

2 ficando fora de si:

Jana disse...

realmente lindo!

beijos

Amanda disse...

essa certeza absoluta me faz desconfiar q pode sim ter sido vc...