23.10.08

As coisas que só acontecem comigo: príncipe iorubá


E lá estava eu no 638 novamente. É aquela coisa toda de recalcar.
Primeira pausa.

Caro leitor, eu sei eu você não tem a menor obrigação de saber o que é o recalcado. Segue uma explicação em bom português.

Ei-la:

Recalcar é simplesmente não querer saber de determinada coisa. Manja quando criança, ao tomar esporro dos pais, coloca as mãos no ouvidos e canta “la la la la la laaaaa, eu não to ouvindo mais!! La la la la la la la la”. Recalcar é isso.

Só que não fica por aí, claro. O recalcado volta.E volta que volta que volta quicando: justamente como a palmada da mãe seguida do castigo do pai.


Voltemos à narrativa.

Eu recalquei o assalto que tinha ocorrido na segunda feira porque eu achava, até então, que o estimado 638 fosse o único meio de transporte para voltar de um glorioso e edificante dia de trabalho. Ele reinava absoluto no meu direito de ir e vir. E, além do mais, minha avó sempre dizia que um raio não cai duas vezes no mesmo lugar. Então. Eu acredito nela. De qualquer modo, eu estava mais ligada no lance: nada de ouvir MP3 no ônibus. (uau!)

Perto do Engenho Novo, adentra o ônibus um espécime em extinção. Negro, alto, forte, de cavanhaque, pulseirona de prata mega-estaile: aquilo tudo era um príncipe iorubá. E eu sou chegada numa baianidade nagô*.

Havia uns seis passageiros no ônibus. Com o piloto e o trocador, éramos oito. Com o príncipe do Congo, nove. Ou seja: tinha lugar pra dedéu sobrando. Droga. O ônibus bem que podia estar mais cheio e aí ele se sentaria ao meu lado, eu puxaria assunto. Oi, quer ser meu amigo? Eu sou bonitinha. Tem orkut? Me dá seu msn? Me olha, me olha! ME OLHA!

Vossa Alteza cagou toneladas e se sentou lá atrás.

Abstraí porque eu sou boa em lidar com rejeição desde a minha adolescência, quando era uma espécie de sósia da Frida Kahlo mais bem nutrida.

Passados uns três minutos, ele vai à frente do ônibus e se dirige ao motorista.

- Ei, motorista, PARA O ÔNIBUS.

Ih, pegou errado. Droga, pensei

Bom, ele se vira com os olhos injetados de sangue para os passageiros.

- AGORA TODO MUNDO QUIETINHO.

Plutão, você só pode estar de brinks. E mais uma vez, eu estava quietinha e não me preparando pro ensaio da timbalada. Essa tradição oral de roubos é um saco. Sempre o mesmo roteiro. Sempre...

- TODO MUNDO OLHANDO PRO CHÃO. MOTORISTA, QUÉ MORRÊ? VAI DEVAGAR. VAI DE-VA-GAR.

É, Sua Majestade senegalesa era um assaltante.

- VAI, TODO MUNDO DE CABEÇA BAIXA, OLHANDO PRO CHÃO. VAI, AI, VAI. PASSA O DINHEIRO.

Segunda pausa.

Sabe, leitor, eu sou uma pessoa dada a seguir ordens. Desde bem pequena sou assim: “carol, faz isso”. E eu faço isso com o maior prazer, risonha, toda alegrinha. Hoje, talvez, eu possa questionar caso seja alguma coisa realmente esdrúxula. Mas, tenham absoluta certeza, que mesmo que não faça, a vontade fica latente.

Sempre fui chegada num imperativo.

Atentem o detalhe: o príncipe-assaltante-camaronês deu quatro ordens num espaço de cinco segundos. Ficar quieta, ir, abaixar a cabeça e pegar o dinheiro. É claro que eu me perdi. Ou bem fico quieta, ou bem vou, ou bem olho pro chão, ou bem cato o dinheiro na carteira.

Vamos otimizar o uso do imperativo. Você tá nervoso, vossa-alteza-nígero-congolesa? Pode acreditar que nós, as vítimas, estamos 7645 vezes mais. Decida-se: ou ficamos quietos ou vamos ou olhamos para o chão ou pegamos o dinheiro.

Humf.


Voltemos.

Neste meio tempo em que ele se decidia se queria que ficássemos quietos, fôssemos, olhássemos pro chão, pegássemos o dinheiro, se o motorista andasse devagar ou parasse de vez o coletivo, lembrei do meu celular novinho em folha.

Ah, não. Outro, não. Este, não.

Num lampejo de clareza do pensamento, quando ele se virou para dar mais umas quatro ou cinco ordens paradoxais ao motorista, eu sentei no celular. É, gente. Eu desobedeci o assaltante, peguei meu celular novo em folha na bolsa, me levantei e sentei nele, sem piedade.

Eu sentei no meu celular com toda esta circunferência de quadril, sim. Antes quebrado a roubado.

O mantra deixou de ser “vai embora logo” e passou a ser “não toca não toca não toca não toca”.

Ok, trânsito engarrafado e esta droga de assalto não vai terminar nunca mais.

Ops, não era engarrafamento. Era uma blitz. Remake do ônibus 174, não.

E eu não podia ver nada, afinal eu ainda estava com a cabeça baixa (eu disse que eu obediente... eu disse, eu disse).

- MOTORISTA, PARA O ONIBUS. TU TÁ QUERENDO MORRÊ?

O príncipe do Egito ficou tenso. Bem tenso.

Escutei um barulho forte. Olhei de soslaio. Ele tinha pulado a roleta.

Hum, duas chances: ou ele toma o motorista como refém e eu tenho uma síncope ou ele vai embora, eu posso pegar meu celular que estava embaixo da minha abundância glútea e paro de entoar mentalmente o mantra “não toca não toca não toca”. E por que esta anta do motorista não para logo este ônibus? Eu disse que tinha respeito pelos motoristas do 638, né? Perdi.

O motorista, enfim, parou o ônibus e a vossa alteza angolana foi embora... assaltar o ônibus de trás. Inacreditável a cara-de-pau do cidadão.

Como bons suburbanos que somos, além de confraternizarmos no pós-trauma, ao passarmos pela blitz**, gritamos todos juntos para os policiais que tinha um assaltante no outro ônibus. Éramos oito gritando coisas distintas ao mesmo tempo, o que tornava o depoimento incompreensível.

Eles não pegaram o assaltante, como já era previsível.

E eu não ando mais de 638. O que também já era previsível. :D


** o policial era bem gato. Aquela coisa toda de segurar o fuzil e tal...
* o que me faz crer que eu curto uma baianidade nagô, uma paulistada desvairada, uma carioquice suingue sangue bom, um porto-alegrense barbadinha, um curitibano daííí... Ou seja: se for XY tô avaliando a possibilidade, uma vez que não tenho mais critério, eu tenho pressa.

10 ficando fora de si:

Adriane disse...

Chorei de rir de você. Demais. Alto. E já mostrei seu texto pra umas mil pessoas. Amei!
Beijos!

Jana disse...

Eu sei, assunto foi sério, mas eu me matei rindo aqui!

Vc queria ser a senhoura do principe nago do crime kkkkkkkkkkkkkkkkkkk


PS: Sou de religião afro, então achei maravilhosos a associação ioruba/nago!

Beijos

Lilian disse...

Dica de leitura...Textos ácidos e sarcásticos, pra quem quer ficar por dentro dos assuntos políticos e dos últimos acontecimentos de forma leve.


www.mosaicodelama.blogspot.com

Boa leitura!

Carol disse...

Não, obrigada

Pedro disse...

Só não te desejo mais desses assaltos porque ninguém merece, né? Mas não posso negar que eles rendem posts hilários, daqueles que entram no rol dos meus preferidos.

Mariano disse...

Carol!
Vamos pegar o 638 manhã a noite? Só por diversão?
HEIN HEIN HEIN?

caicko disse...

Meu Deus!!!! Juro que seu texto compensou todo o stress que vivi no dia de hoje. Esse aí COM CERTEZA vai virar esquete de teatro. É como o o Pedrinho falou: a gente quase fica com vontade de que você passe por mais "perrengues" como esse, só pelo prazer da gargalhada futura. E a cada dia eu me espanto mais com a sua veia cômica. Um beijo baiano - que, infelizmente, não é nagô!!! huahuahuahuhauhuah

Anônimo disse...

Karo,
já sei que não posso NUNCA pegar o 638. rs
Nossa, tô aqui rindo sozinha, como uma louca. Mas sei que o assunto é sério. Vc teve muita sorte do seu celular não tocar, ufa!
Agora, uma coisa deve ser dita: Você é muito boa nesse negócio de escrever! Quero ser igual a você quando eu crescer.

Beijos e saudades

Emília Miterofe

Ana disse...

muito fodaa!
virei fã!

aninha disse...

"Ou seja: se for XY tô avaliando a possibilidade, uma vez que não tenho mais critério, eu tenho pressa."

uma das coisas mais engraçadas que li ultimamente.... parabéns!!