13.5.09

Carta de apresentação

Oi.

Meu nome é Ana Carolina. Tenho 29 anos, mas envelheci mesmo aos 8, depois que meu pai morreu. Tolice do cacete. Não, na verdade, nem tanta tolice assim. É que a porrada foi tão grande que não tive outra alternativa. Aos 8 anos eu era mais velha do que sou agora. E, pra mim, naquele momento, a vida se tornou um troço muito, muito, muito sério. Demorou algum tempo pra eu perceber que não precisava ficar com a cara trancada pra ser gente grande (às vezes a gente faz estas confusões, né?).  Acho que foi no carnaval de Olinda. Nossa, como eu estava bonita naquela época. Tinha 21 anos. Eu lembro de ter roçado de leve na felicidade lá e, junto com ela, veio viço, o sorriso, a liberdade da juventude. 

Hoje eu sou uma boba-alegre. Uma bobona que chora com piguice e que gosta de música ruim. Adoro pieguices e queria que minha vida fosse colorida com mais delas. Gosto de músicas que me tocam, seja aquela velhona do Nirvana que descobri anteontem (essa é boa!), seja aquela da Madonna que fala da chuva (e quantas vezes na adolescência de amores platônicos, eu ficava na janela ouvindo Rain e pensando nos meus amores ainda embrionários), essa do Wilco que tá tocando agora, aquelas da Amy, principalmente as que falam de bebedeiras.Tem uma em que ela fala que chorou por ele no chão da cozinha. Eu já chorei no chão do corredor; no tanque lavando roupa; na frente do computador abraçada no joelho; alto, trancada no meu quarto pra ouvirem; com o chuveiro ligado pra ninguém ouvir; agarrada com o travesseiro do meu pai, sentindo o cheiro dele ainda lá pra matar a saudade. Já chorei no ônibus voltando pra casa, já chorei em avião e em ônibus interestadual. Ultimamente, choro escrevendo. É bom acessar a dor assim, fazendo alguma coisa dela. Tenho saudade daquilo que eu ainda não vivi. Tenho saudade do que eu fantasiei mas que a realidade, essa impiedosa, me tirou. Tenho saudade do que ficou no passado. Tenho saudade do futuro. Tenho problemas com desapego. Não gosto de pessoas saindo da minha vida. Acho que por isso sou amiga dos ex namorados que me permitem. Mas aprendi, na marra, que algumas pessoas saem da nossa vida e pronto. Outras hão de entrar. Amém.

Tenho dificuldade de falar sobre a minha mãe. É tanta admiração que fica difícil colocar em palavra. Gosto quando ela gargalha, gosto quando conversamos. Gosto quando vejo que ela é querida por um monte de gente. Me sinto uma fraca quando vejo tudo por que ela passou e, sem medo, preguiça ou cansaço, ela persiste. Tão bonita, tão corajosa, tão íntegra, tão alegre.

Meu irmão vai sair de casa e eu não sei como vai ser sem ele aqui. O que eu sei é que eu serei um pouco mais só. Eu gosto da solidão, mas gosto mais com a perspectiva dele chegando e me contando qualquer coisa engraçada, suas histórias. Ou rindo das minhas. Ou discordando comigo e brigando. Ou me dando força. Ou me abraçando quando eu choro. Eu não sei como eu vou ser sem ele aqui.

Leio menos que gostaria. Li pouquissimos clássicos, mas baixei a obra completa de Dostoievski. Já li Paulo Coelho, Sidney Sheldon e Lya Luft (não tive muita paciência pra ela). Achei Memórias Póstumas de Brás Cubas um saco. Não entendo bem a do Jorge Amado. Gosto de João Ubaldo Ribeiro. Gosto do filho dele também. Rá. Leio Lacan. Não entendo. Leio de novo. Adoro ler Freud. Amo Gabriel Garcia Márquez. Amo Caetano. Amo Maria Bethânia. Amo Vinicius de Moraes e Mário Quintana. Amo Woody Allen. Não gostei de Vicky Cristina Barcelona. Não conheço basicamente nada daqueles cineastas renomados. Amo a arte que é acessível. Não gosto de punhetas intelectualóides. Não gosto de gente que cita nome de autor no meio de frases. Não gosta de quem caga regra sem saber.

Dos homens, o que me atrai é a voz, a mão e o modo que alguns honram o que carregam entre as pernas. Homem tem que ser homem e ponto. 

Eu quero ser dj. Quero ser escritora. Acho que não tenho talento pra nenhum dos dois, mas continuo escrevendo, baixando músicas e programas pra brincar de ser DJ.

Só sei escrever em primeira pessoa.

Quero conseguir correr 10km. 

Queria que a vida fosse mais palatável. Ou que eu fosse mais alienada. Deve ser bom ser alienada. Já fui, mas não me lembro bem como era.

Quero muito, quero sempre. Gosto de palavras que remetem ao absoluto: tudo, sempre, muito. Gosto de pronomes possessivos: meu, minha, meus minhas, teu, tua, teus tuas.

Meu vocabulário é rasteiro. Queria saber usar palavras bonitas como epifania, leniência.

Abraço quando eu amo. Gargalho alto quando estou alegre. Brigo quando eu tenho raiva. Antes eu me calava, mas vi que não adianta muito. Prefiro brigar mesmo. Me encolho e calo quando fico triste. Não sou polida. E, às vezes, acho que sou mais transparente do que deveria ser.

É isso, basicamente. 

Ana Carolina

23 ficando fora de si:

MarcosVP disse...

Please to meet you.
Best regards.
Marcos.

Rose Carreiro disse...

Deu vontade de fazer uma dessas, mas não aguento mais ecsrever About Me pra blogs =/

=*

Carol disse...

Pois é, também não queria. Mas hoje eu precisava desta catarse.

Mosana disse...

Prazer, Monique.
Me vejo em muitas coisas do que vc escreve, começa que sou sagitariana, carioca e tb tenho 29.
Ao mesmo tempo em muitas outras coisas me vejo "longe" de vc.
Gostei de te conhecer.
Kisses

Carol disse...

:)

(e eu gostei de me reconhecer... :D)

kate disse...

Eu ja tentei me criar num texto, mas nao consigo. Tem dias que nao sei quem eu sou, e tem dias que eu queria esquecer!

Amanda disse...

Sempre bom te re-conhecer

CAMILA disse...

Linda apresentação, Carol!
Deu vontade de ser sua amiga.
Beijo

CAIO disse...

É gostoso poder conhecer algumas Carolinas que moram dentro dessa Carol que eu tanto amo, e ainda não conhecia. Mas... como é que você não gostou de Vicky Cristina Barcelona??? Gostei taaanto. Beijos!!

Blog de Merda disse...

Belo texto! Parece que você sabe exatamente quem você é e foi, mas ao mesmo tempo parece que não faz a mínima ideia... Escreves muito bem moça! Beijo, Fabricio (leitoa).

Chu disse...

Carólis, que texto excelente! Adorei, adorei. Transparente, honesto, simples. Eu sou 100% a favor de textos assim. E de pessoas assim. Que não fazem pose e admitem que choram, admitem fraquezas, riem de tudo e de nada.

Beijos, querida

Bruno disse...

Olá Carol, é a primeira vez que vejo seu blog, confesso que nem sei bem como cheguei aqui, só sei, que adorei o seu texto, pode até não se achar uma boa escritora, sei que não me arrependi de "perder" o meu tempo lendo, acho que não sou o único.
Beijãooo

Teté disse...

ai que máximo
adorei *--*
vc escreve mtoooo
sem noção
acho que tenho uma certa dificuldade em escrever sobre mim, ainda mais em momentos dificeis como agora em que tudo parece estar na mudança ;s
enfim, parabéns
gosto mto de vir aqui ler o que vc escreve ;]
bjoka

Anônimo disse...

Muito prazer, sempre 'ando' por essas bandas lendo (admirando) sua escrita. Daí, o mais "fácil" é correr os 10 kms....

Carol disse...

Kate - tem dias que eu quero esquecer quem sou. Tem dias que eu até consigo. Aí, depois, quando eu lembro quem sou eu, é pior. Prefiro saber quem eu sou sempre, então. Mesmo que saber não adiante muita coisa. Ou mesmo que eu saiba que não sou grande coisa. Blé. hehe

Amandita_ servimos bem para servirmos sempre. hahahaha

Camila - chega mais, camila! :D

Caio- Detestei VCB. Achei a historia fraquissima, aquele narrador, sem nenhuma entonação, um porre. Ai, muito chato. hehe

Blog de totó (hahaha) - exatamente isso. Eu sei que eu sou, mas eu não faço a menor idéia do que seja isso. Rá.

Chu - Que comentário mais fófis. Amei! Nhoim! (quando vc volta aqui, caceta?)

Bruno - Oi, Bruno! Volte mais vezes, já que aprendeu o caminho! Só não me xinga depois. hahaha

Teté - escrever este texto não foi fácil, pode acreditar. Chorei que nem uma madalena arrependida. Mas depois é bom, porque fica de verdade. Eu recomendo!

Anônimo - Discordo. Acho o mais dificil correr os 10 km dado que não corro nem 1 km direto. hahahaha.

Debby disse...

Amo a escrita pq ela tem o dom de nos fazer auto-conhecer. Amei a carta,espero ter coragem de fazer uma sobre mim em breve ^^
Bjoks

Tio_paladino disse...

Por um momento esqueci do meu chefe discutindo do meu lado, os barulhos da sala, das janelas do msn, das ( inúmeras ) abas do firefox... Só vi flashes, música, imagens, lembranças e vida. Tão bom quanto os melhores livros que já li, com a diferença de ser real.

Mais que perfeito.

Beijo grande =)

Zander Catta Preta disse...

eu não sou a carol. zander, prazer.

Carol disse...

Debby - amei o nome do seu blog! As palavras tem gosto, cheiro e presença. Acredito tanto nisso!

Tio Paladino - ah, que comentario mais querido. daqueles que a gente tem vontade de guardar e ler toda noite pra lembrar que o que a gente faz toca quem a gente nunca nem viu. Volte sempre, fale o que der na telha e deixe seu contato! hoho
:D


adoro responder comentarios depois de 9 long necks. adooooooooro

Carol disse...

Oi, zander!

Anônimo disse...

Carol,

muito bonito, mesmo.

@leal (twitter)

Pedro disse...

Esse perfil de blog tá no lugar do post fazendo o que? Ah, já sei. Pra gente te conhecer melhor, né? Ninguém lê perfil de blog. hahaha...

Enfim, belo texto, Karooo.

Michael Lourant disse...

Amei isso!
Juro!

Parabéns "guria"!